Bananas e Morangos

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É sempre surpreendente perceber que certas emoções, aparentemente resolvidas, estavam apenas adormecidas. Temos uma tendência de cair no conto de que nossas instabilidades são causadas pelos outros ou pelas situações, quando tudo está em nosso olhar. Quando parei de tomar remédios, eu ativamente me forcei a olhar meus medos de frente e o tempo todo. O medo virou meu companheiro, me acostumei com sua presença e me adaptei a ele. Com o tempo, o tratamento de SE e a meditação, tudo isso foi ficando cada vez menos intenso. O que eu não estava esperando é que outras questões, que estavam obscurecidas, emergiriam. Sensações de raiva, irritação, carência, desejos, apegos, nada de diferente do que todo sentem e que de alguma forma estranha me surpreenderam.

É bem interessante observar como situações e pessoas têm me levado de um lado para o outro. Eu sinto com muita intensidade, como sentia com o pânico, mas não tenho conseguido trazer o controle que aprendi lidando com o pânico para essas outras situações. Tenho conseguido enxergar, perceber as emoções surgindo, mas não consigo dissolver-las. Ainda dou uma solidez grande para muitas coisas. Percebo no meu rosto, no meu olhar que a leveza de vez em quando se esconde.

O caminho é sempre esse eu acho. Na base me parece ser tudo a mesma coisa, a diferença parece ser o sabor de cada situação. Acostumei com o gosto da banana, mas o azedo do morango, por enquanto ainda me arrepia.

 

Fases

Sabe aquela fase que parece que as coisas te escapam?

Não está tudo horrível, não está tudo maravilhoso, mas parece que tem um nó na garganta que não se dissolve, parece que a cada tanto de passos nós tropeçamos naquela mesma pedra conhecida e ainda assim não a reconhecemos imediatamente. Ficamos dando voltas em torno de nós mesmas sem reconhecer que, aquela pedra é exatamente a mesma pedra dos tropeços anteriores. A lama pode até encobri-la, mas é ela mesma quem está ali.

É difícil de não se chatear quando as sensações voltam depois de um tempo de calmaria. Eu fico com a impressão que as coisas se dissolveram, melhoraram de vez. Mas parece que nunca melhora completamente, nunca se apaga totalmente. E eu sei disso, repito isso para mim mesma mas volta e meia me esqueço, e quando o medo aparece é difícil evitar a raiva, a frustração e o medo do medo.

Parece que o abismo acompanha, às vezes mais longe e às vezes tão perigosamente perto. Não sei se é de fato possível mudar quem somos, prefiro acreditar que posso e devo estar sempre atenta, sempre alerta, ainda que isso não signifique estar tensa, ainda que isso não signifique eu possa estar relaxada.

Não sei se nessa vida se chega de fato a algum lugar, mas o caminho já dá tanto trabalho que eu não entendo essa minha necessidade de ter um objetivo final, seja ele qual for. É uma bobagem, eu enxergo como bobagem e ainda sim não consigo abrir mão dela….

Padrões que se repetem

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E o que você faz quando consegue perceber seus padrões se repetindo?

Como um filme na TV as mesmas coisas acontecem, as mesmas reações se repetem, as mesmas sensações aparecem. As alegrias, as tristezas, as irritações – elas estão todas ali, é só aparecer o gatilho certo.

Se recebo uma resposta, fico feliz, se não entendo alguma coisa, fico irritada e nunca mais quero interagir, mas é só mudar o tom e rapidamente fico feliz de novo. Como é possível ter tantas mudanças de humor num só dia? Às vezes no espaço de uma só hora?

E com as dores é a mesma coisa.

Está cada vez mais nítido a minha mudança de humor quando sinto alguma dor, nem precisa ser uma crise, só o suspiro da lembrança pode ser suficiente. Eu tenho percebido, tenho visto acontecer. Às vezes antes, às vezes durante, muitas vezes depois. Às vezes eu imagino o que poderia acontecer e não tem erro, acontece exatamente como eu imaginei antes.

As noite têm sido difíceis e agora eu já me pego esperando que elas sejam difíceis mesmo, e para a minha falta completa de surpresa elas realmente são. Difíceis, chatas, se arrastam e cada vez mais eu me vejo criando o meu próprio calvário.

E hoje me bateu essa clareza, esse insight de enxergar meus processos. Parece que a coisa vêm se construindo há alguns meses e agora ficou claro de vez. A desatenção se construindo, a necessidade de distrair a cabeça, o distanciamento do ato de silenciar, a irritação, a raiva e a carência. Tudo começando pequeno, sem nem dar para perceber e agora a coisa toda tomando um tamanho tão maior. Fico tentando me lembrar das outras vezes, nos outros surtos como tudo isso se construiu e o tamanho que foi ganhando sem eu nem me dar conta do que estava se transformando dentro de mim. Eu não consigo saber se terei outro surto, não tenho mais disposição para grandes certezas, mas consigo perceber cada vez mais claramente a possibilidade de soltar e reverter o processo.

 

Novas descobertas

Esses últimos meses têm sido diferentes. Eu reconheço as sensações e ainda assim elas me parecem estranhas. Tenho sentido mais impaciência, mais irritação e como não poderia deixar de ser, mais confusão mental. Tenho sentido meus pensamentos chegarem de uma maneira agressiva, como que demandando minha atenção, como se estivessem gritando comigo. Não é sempre, não é toda hora, mas é incômodo, principalmente porque em algum momento eu realmente acreditei que essa “fase” tinha passado.

Eu acreditei piamente que uma vez que tivesse conseguido acalmar esse tipo de pensamento eu não os teria mais. Não sei porque ou de onde tirei essa ideia. Parece estapafúrdia agora escrevendo. Eu não sei porque acreditei que poderia ficar sem praticar de maneira consistente e que tudo continuaria igual. Não entendo porque acreditei que manutenção e consistência seriam menos fundamentais para a mente do que são para o corpo.

A verdade é que a única importância disso tudo foi perceber que nenhuma dessas coisas que eu acreditei eram reais. Acho que tenho uma tendência  relaxar quando as coisas estão bem, a deixar pra lá:

“ahh, está indo tudo tão bem… amanhã eu sento e pratico direito, amanhã eu fico mais tempo meditando… não preciso mais tanto assim…”

cada vez fica mais claro para mim como eu me distraio facilmente, como deixo minha mente ser levada para os lugares mais improváveis. Talvez venha daí a razão pela qual o pânico cravou suas garras em mim tão profundamente.

De qualquer maneira tudo tem um lado bom e dessa vez o lado bom foi perceber esse movimento de altos e baixos, de que a minha estabilidade depende de uma consistência. É bem parecido com a época em que tomava remédios: eu não podia passar uma semana sem toma-los.

Logo a única coisa que mudou de verdade foi o tipo de remédio, não a necessidade de tomá-lo todos os dias.

“Quando sua mente está mais desequilibrada é que você mais precisa meditar”: meditando com Alan Wallace

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publicado originalmente por Nando Ferreira no dharmalog

Durante um retiro realizado em Viamão (RS) na segunda metade de janeiro deste ano, o professor budista americano Alan Wallace deu instruções preciosas sobre a prática da meditação shamatha, um dos tipos de meditação budista para o apaziguamento da mente (geralmente através da atenção na respiração), e parte dele foi traduzido e transcrito por Jeanne Pilli, que esteve no retiro e mantém o site Equilibrando.Me – ela gentilmente permitiu a reprodução do trecho aqui. PhD em Estudos Religiosos na Stanford University (EUA), fundador da Santa Barbara Institute for Consciousness Studies (EUA) e autor de livros como “A Revolução da Atenção” e “Hidden Dimensions: The Unification of Physics and Consciousness”, Alan Wallace traz uma abordagem sempre muito clara e detalhada sobre o contato e o trabalho sobre a mente, e esse trecho transmite isso. Na essência da mensagem, a importância de meditar quando mais a mente precisa, ou seja, no desequilíbrio.

Segue abaixo o trecho das instruções, com agradecimentos ao professor Alan Wallace e à Jeanne Pilli.

“Para avaliarmos se estamos fazendo a prática de shamatha corretamente, há sempre duas coisas a serem consideradas: o que a sua mente está trazendo para você e o que você está trazendo para a sua mente. São duas coisas bem diferentes.

Algumas vezes durante a prática surgirão muitos pensamentos, não há como controlar, não há como escolher que isso seja diferente. Então você simplesmente repousa: muitos pensamentos vêm, muitos pensamentos vão. Você não está fazendo nada de errado; é assim que as coisas são. Mas se quando surgirem muitos pensamentos você for carregado por eles, aí sim: isso é distração, agitação.

Outras vezes, sua mente estará bem quieta, com poucos pensamentos. E isso também não quer dizer que você esteja fazendo a prática corretamente. Sua mente está simplesmente quieta. Neste caso, a mente está trazendo pouco pra você.

O que nós devemos trazer para a prática, seja lá como estiver a nossa mente, é a habilidade de não sermos carregados pelos pensamentos, de permitir que a nossa consciência permaneça em repouso, iluminando o nosso objeto de meditação, seja a respiração, seja o espaço da mente e eventos mentais, seja a própria consciência.

Portanto, é importante avaliar a sua prática em termos do que você está trazendo para a prática e não com base no que a mente está trazendo pra você.

Essa distinção é muito importante. Na nossa vida, alguns dias serão piores que outros. Haverá dias muito conturbados, com muito trabalho, muitas preocupações, dias ruins. A mente estará bastante irritada, toda a nossa energia estará perturbada. Pode ser que você se sente para praticar e dois minutos depois desista: “Esqueça! Hoje não vai dar pra meditar!” E então se levante, vá ver TV, ou vá para a internet. Isso é como estar muito doente e pensar: “Ah… estou tão doente! Estou muito doente pra tomar remédio! Vou deixar pra quando estiver me sentindo melhor!”

Nesses dias em que a sua mente estiver verdadeiramente uma confusão, você pode simplesmente se deitar na sua cama, com um travesseiro macio sob a sua cabeça e soltar completamente a tensão do corpo, a cada expiração, relaxar completamente, deixar o corpo respirar sem esforço, em seu ritmo natural. Relaxe até o finalzinho da expiração e nesse momento deixe a mente bem quieta, sem nenhum blá, blá, blá. E então permita que o ar entre novamente, sem puxá-lo, em total quietude.

Faça isso por 24 minutos. A mente que você trouxe para a prática pode estar completamente perturbada, atirando pensamentos, pedras, lama, tudo o que é tipo de coisa em você. Não há como controlar isso! É o que a mente está trazendo para você. Mas o que você está trazendo para a sua mente é tão doce, tão suave, tão tranquilizador, que após 24 minutos sua mente estará mais calma, quieta, equilibrada. E aí sim, no final da sessão avalie: esta foi uma boa sessão ou não? Talvez uma sessão difícil em termos do que a mente trouxe para você mas uma boa sessão em termos do que você trouxe para a mente.

É nos momentos em que a sua mente está mais desequilibrada que você mais precisa meditar.”

~ Alan Wallace, Retiro sobre os “Seis Bardos em A Essência Vajra”, Viamão, 23 de janeiro de 2014

Tomar comprimidos para depressão: uma visão budista

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B. Alan. Wallace

O conjunto dos ensinamentos do Buda provem da compaixão, do desejo de que todos os seres possam se livrar do sofrimento e de suas causas. No mundo de hoje, uma das formas mais opressivas e debilitantes de sofrimento é a depressão. Muito mais do que experiências fugazes de tristeza, a doença mental clinicamente diagnosticada, conhecida como depressão maior é incapacitante na medida em que interfere com a nossa capacidade de trabalhar, dormir, estudar, comer e desfrutar de atividades outrora prazerosas. A Organização Mundial de Saúde alerta que a doença mental está aumentando, e prevê que uma em cada quatro pessoas desenvolverá um ou mais transtornos mentais durante suas vidas. Até o ano 2020, a depressão deverá ser a causa de doença mais prevalente no mundo desenvolvido.

Para que a depressão seja tratada de forma eficaz, é preciso identificar as causas e circunstâncias específicas que contribuem para cada caso. Do contrário, existe o perigo de tratarmos cegamente seus sintomas sem resolvermos as causas subjacentes. De acordo com estudos recentes, é altamente improvável que a depressão resulte puramente de desequilíbrios químicos, exceto em raros casos de deficiências de vitaminas, acidente vascular cerebral e assim por diante. Além disso, a síntese de centenas de estudos indica que os antidepressivos não são mais eficazes no tratamento da depressão resultante desses tipos de causas do que no tratamento da depressão resultante de causas relacionadas ao estresse. Isto implica que a depressão é mais bem entendida como um transtorno mental, não como um distúrbio neurológico.

Acho útil traçar uma distinção entre estes dois tipos de transtornos. Doenças neurológicas, como o autismo, derivam principalmente de fatores biológicos objetivos, que por sua vez afetam a experiência subjetiva. Transtornos mentais derivam principalmente de processos mentais subjetivos, que por sua vez afetam o cérebro. Minha hipótese subjacente é de que a mente e o cérebro são causalmente relacionados, mas não são idênticos. As evidências sugerem que a depressão é mais bem compreendida como um transtorno mental e, portanto, a verdadeira cura deverá ser encontrada por meio do exame de suas principais causas psicológicas. Esta forma de distinção entre os transtornos mentais e os neurológicos ajuda a explicar porque o nosso conhecimento sobre o cérebro, embora em rápido crescimento, não resultou em um grau correspondente de progresso no desenvolvimento de medicamentos para tratar doenças mentais.

De acordo com a psicologia budista, a depressão maior não é considerada por si só uma “aflição mental” (klesha), mas é um sintoma das aflições subjacentes de hostilidade, desejo ardente e delusão. Todas as aflições mentais são caracterizadas por perturbar o equilíbrio da mente, resultando em um comportamento negativo, que por sua vez dá origem ao sofrimento, para nós e para os outros. A prática budista, composta pelo cultivo da ética,samadhi e sabedoria, destina-se a corrigir estas verdadeiras causas da miséria humana.

Se buscarmos pelos processos psicológicos aflitivos que podem resultar em depressão dentro do contexto budista, veremos que os chamados Cinco Obstáculos, ou “obscurecimentos” desempenham um papel crucial. Estes incluem (1) o desejo e o apego aos prazeres hedônicos, incluindo os relacionados com a riqueza, poder e fama (resultando em frustração e ansiedade crônicas); (2) malevolência e ressentimento; (3) déficit de atenção e embotamento; (4) atenção e hiperatividade e culpa, e (5) a incerteza debilitante. O Buda declarou que, “Enquanto estes cinco obscurecimentos não forem abandonados, a pessoa deve-se considerar em dívida, doente, presa, escravizada e perdida em uma trilha no deserto” (Sāmaññaphala Sutta). Esta é claramente uma descrição de problemas de saúde mental, e isso implica uma característica fundamental e particular da visão de mundo budista, ou seja, que a mente de uma pessoa que está propensa a todos os obscurecimentos acima pode ser normal, mas não é saudável.

A depressão que se origina de qualquer um desses obscurecimentos é indiretamente aliviada com o cultivo da disciplina ética baseada na não violência e na benevolência, e diretamente abrandada com samadhi, ou atenção focada. Por meio do treinamento dosamadhi, incluindo o cultivo da atenção plena e da introspecção, aprende-se a superar a tendência habitual da ruminação negativa e a desenvolver uma sensação de bem-estar físico e mental, juntamente com o aumento da estabilidade da atenção e clareza. A eficácia curativa de tal prática meditativa é ainda mais aumentada com o cultivo das virtudes sublimes de bondade amorosa, compaixão, alegria empática e equanimidade.

A delusão se encontra na raiz das aflições mentais de desejo ardente e hostilidade, e pode ser de dois tipos: inata e adquirida. As formas inatas de ilusão incluem os vieses cognitivos de ver o impermanente como permanente, confundir as verdadeiras fontes de sofrimento e de felicidade genuína, e reificar equivocadamente fenômenos internos e externos como “eu” e “meu”. Assim, com base no equilíbrio mental excepcional alcançado por meio da prática de samadhi, pode-se então engajar efetivamente na prática da meditação de insight, resultando na sabedoria libertadora de realizar a natureza da impermanência, do sofrimento e da ausência de identidade. Tal sabedoria serve como um antídoto direto para a depressão, curando suas causas mais fundamentais da compreensão equivocada da natureza da realidade.

É importante não confundir o transtorno mental da depressão com a tristeza e a desilusão que se originam do aprofundamento do insight sobre a natureza da realidade. A infelicidade poderá ser despertada, por exemplo, por um sentido pessoal de desencanto com a busca insatisfatória do prazer hedonista, ou pela simpatia opressiva pelo sofrimento e angústia dos outros, acompanhada de uma sensação de impotência para aliviar a dor.

Essa tristeza pode servir como um elemento chave na busca de um modo de vida mais satisfatório, altruísta e autêntico, bem como de formas mais eficazes de colocar-se a serviço de outros. A meditação pode de fato despertar esse desânimo baseado na realidade, e a prática budista mais completa pode resultar em uma mudança significativa na visão de mundo, nos valores e no modo de vida que permite superar tal infelicidade a partir de sua origem.

No decorrer de nossas vidas, podemos compor nossas tendências delusórias inatas de má-compreensão da realidade, com os tipos de delusão que colhemos de nosso ambiente cultural e da educação. Em minha opinião, o materialismo científico é uma espécie de delusão adquirida, que domina a educação moderna, a investigação científica e a mídia popular. Esta é a visão de que toda a realidade consiste em nada mais do que massa-energia, espaço-tempo e suas propriedades derivativas. Os materialistas também comumente acreditam que apenas os processos físicos têm eficácia causal, o que implica que as únicas influências sobre o cérebro são as físicas. Esta crença ignora a eficácia causal de informações significativas, que não podem ser medidas por máquinas irracionais, mas podem ser detectadas pela inteligência consciente subjetiva.

Os únicos tipos de fenômenos naturais que os cientistas podem medir com seus instrumentos tecnológicos são os objetivos, físicos e quantificáveis. Mas os processos mentais, em contraste com suas expressões comportamentais e seus correlatos neurais, são subjetivos, não têm atributos físicos e são qualitativos. Portanto, eles são invisíveis aos métodos científicos de medição. Os materialistas, portanto, equiparam o que eles não podem medir, a experiência subjetiva, àquilo que podem medir. Isto implica uma espécie de “metodolatria” pela qual se assume que os métodos científicos de investigação em terceira pessoa constituem “o único e verdadeiro caminho” para a compreensão do mundo natural, enquanto desconsideram os insights e descobertas que podem ser feitos por meio da introspecção e investigação contemplativa em primeira pessoa. Portanto, rejeito ambas as abordagens excludentes para a compreensão da natureza, bem como suas conclusões reducionistas, já que não são validadas por evidências empíricas e nem pelo argumento lógico.

Os materialistas frequentemente equiparam pessoas a seus cérebros, os quais operam de acordo com as leis amorais e irracionais da física e da química. Muitas pessoas, inclusive eu, acham que essa crença não apenas é infundada por evidência empírica, mas também desumanizador, incapacitante e desmoralizante. A doutrinação neste sistema de crenças, especialmente quando é apresentado como sendo parte integrante de toda visão científica de mundo, pode ser uma importante causa indireta da depressão no mundo moderno. É fundamental observar que muitos cientistas não aderem aos princípios metafísicos do materialismo. Isto implica claramente que não são uma característica necessária do pensamento científico.

Mas há muitos pesquisadores no campo da saúde mental, que consideram todas as doenças mentais simplesmente como sendo doenças do cérebro, o que implica que a principal maneira de tratá-las é com medicamentos ou outras intervenções físicas. No “mundo desenvolvido”, onde o materialismo tem maior influência, as pessoas estão tomando mais comprimidos do que nunca, sendo que um em cada cinco adultos nos Estados Unidos estão tomando ao menos um medicamento psiquiátrico. Enquanto isso, a indústria farmacêutica gasta bilhões de dólares para aumentar suas vendas por meio da publicidade direta ao público, além de marketing dirigido aos profissionais de saúde mental. Seus esforços foram recompensados. Durante a década de 1996 a 2005, o número de americanos que tomavam antidepressivos dobrou de 13,3 para 27 milhões e, em 2008, as vendas de antidepressivos atingiram a impressionante cifra de US$ 9,6 bilhões só nos EUA. Milhões de pessoas estão claramente desesperadas pelo alívio da angústia.

Há um preço alto a pagar por essa dependência das drogas em longo prazo, além da óbvia carga monetária, já que esses medicamentos tratam apenas os sintomas de quase todos os casos de depressão, resultando em dependência prolongada, com sua vasta gama de possíveis efeitos colaterais negativos. Enquanto a indústria farmacêutica afirma que os antidepressivos ajudam cerca de 75 por cento das pessoas, a falha de tais drogas para os 25 por cento restantes pode de fato levar a um desespero ainda maior, pois as pessoas concluem que têm danos neurológicos irreversíveis.

Cientificamente, é crucial determinar se os benefícios para a maioria de 75 por cento realmente resultam do tratamento com as drogas ou do efeito placebo. De acordo com um estudo publicado em 2002 no American Journal of Psychiatry, até 75 por cento da eficácia atribuída aos antidepressivos é realmente resultante do efeito placebo, que é uma designação incorreta para a eficácia da resposta consciente subjetiva a informações significativas. Outros estudos demonstram que quanto piores forem os efeitos colaterais, mais forte será o efeito placebo. Pacientes se convencem de que a droga que estão tomando é tão forte que causa náuseas e impotência, e então falsamente concluem que deve ser forte o suficiente para melhorar a depressão. Além disso, as pessoas que tomam antidepressivos são mais susceptíveis a recaídas quando o antidepressivo é descontinuado, quando comparadas a pacientes que se recuperam com um placebo e, em seguida, têm o placebo descontinuado.

A pesquisa histórica publicada no Journal of the American Medical Association em 2010 indica que os benefícios dos antidepressivos variam “de inexistentes a insignificantes” em pacientes com depressão leve, moderada e até mesmo grave, e que altas doses de antidepressivos são pouco mais eficazes do que doses baixas. Apenas em pacientes com sintomas muito graves (cerca de 13 por cento das pessoas com depressão), observou-se um benefício estatisticamente significativo com o tratamento. Consequentemente, espera-se que as vendas mundiais de antidepressivos, que atingiram o pico de US$ 15 bilhões em 2003, caiam agora para menos de US$ 6 bilhões até 2016.

Embora os cientistas cognitivos tenham reconhecido que os processos subjetivos mentais desempenham um papel importante na indução da depressão, a investigação científica sobre as causas e tratamentos da depressão, sob a disseminada e penetrante influência de crenças e metodologias materialistas, tem se concentrado principalmente em fatores físicos. Enquanto isso, os neurocientistas expressam a perplexidade de que, apesar do conhecimento do cérebro estar em rápido avanço, pouco progresso tem sido feito no desenvolvimento de medicamentos para suprimir os sintomas, e menos ainda, para curar doenças mentais, que os materialistas insistem não serem nada mais do que distúrbios cerebrais. Esta é a conclusão inevitável do lema reducionista, “a mente é o que o cérebro faz.” Seria fascinante ver uma pesquisa científica imparcialmente conduzida sobre os efeitos do reducionismo materialista sobre a depressão e outros transtornos mentais.

Em resumo, o fracasso em identificar e tratar as verdadeiras causas da depressão resultou em uma dependência excessiva de drogas e uma subutilização de métodos capazes de curar a partir da origem. Os medicamentos desempenham um papel importante no auxílio ao manejo dos sintomas de doenças mentais, incluindo transtornos de ansiedade, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e depressão. Por exemplo, em casos de depressão muito grave, os antidepressivos ajudam a restaurar o equilíbrio emocional suficiente para que as pessoas possam se beneficiar de outras formas de tratamento, tais como terapia cognitivo-comportamental baseada em atenção plena. Mas como os transtornos mentais, da forma como os defini, contrariamente aos distúrbios neurológicos, são causados principalmente por fatores psicológicos subjetivos, ao invés de objetivos e biológicos, devemos nos voltar para a experiência em primeira pessoa, a fim de identificar suas verdadeiras causas.

Existe uma complementaridade maravilhosa entre as rigorosas metodologias da ciência moderna em terceira pessoa e as rigorosas metodologias do budismo e outras tradições contemplativas em primeira pessoa. Pela primeira vez na história humana, temos fácil acesso a ambos os sistemas de investigação, cada um com suas próprias forças e limitações. Considerando a realidade do sofrimento e de suas fontes e a urgente necessidade da humanidade de encontrar alívio para os transtornos mentais, é imperativo deixar de lado preconceitos ideológicos e metodológicos, tanto científicos quanto religiosos. Temos agora a oportunidade de integrar métodos contemplativos e científicos de investigação para oferecermos uma compreensão abrangente da existência humana, que inclua totalmente tanto os aspectos subjetivos quanto objetivos do mundo natural, sem reduzir um ao outro. Esta abordagem é uma grande promessa para curar as aflições do mundo moderno.

 

B. Alan Wallace, autor de Meditations of a Buddhist Skeptic: A Manifesto for the Mind Sciences and Contemplative Practice, é o fundador do Santa Barbara Institute for Consciousness Studies. Monge budista por catorze anos, com doutorado em estudos religiosos pela Stanford University, tem ensinado filosofia e meditação budistas em todo o mundo desde 1976.

http://www.inquiringmind.com/Articles/PoppingPills.html

Tradução livre de Jeanne Pilli

O pânico fora do pânico

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É estranho como o tempo vai passando, como a vida vai acontecendo e em algum nível é sempre a mesma coisa. Coisas boas acontecem, coisas ruins atravessam a nossa vida o tempo todo, todos os dias. Em setembro eu quase perdi minha mãe, passei dias na sala de espera da uti, depois mais dias no hospital e depois mais alguns meses acompanhando sua recuperação. Nesse tempo todo só uma vez cheguei perto de uma crise, num dia que parecia mais longo que os outros eu senti todas as dores e o medo chegando. Na sala de espera eu achei que não conseguiria entrar para visita-la, achei que perderia os 15 minutos diários que eu tinha com ela. Foi dolorido perceber até que ponto o pânico poderia me controlar e me limitar. Dor em cima de toda a dor que se passava. Mas apesar de muitas vezes o pânico ter ditado muito das minhas ações e muitas vezes, no longo prazo, ter sido positivo, eu percebi que eu poderia dar o tamanho e a solidez para essa condição. E que de vez em quando o contexto fora realmente é sério, é de verdade, e é de vida e morte. Ainda que não seja a minha vida ou a minha morte. Pensei em muitas coisas naqueles dias, mas nenhuma delas foi em mim, na minha sensação de solidão ou no meu medo de perder minha mãe. Talvez uma parte de se lidar com o próprio pânico seja tirar o foco do pânico. Ficamos tão submersos em nossa própria dor que mesmo quando ela diminui fica difícil de admitir e abrir mão das preocupações, abrir mão de estar absorvido em si mesmo. 

Saber quando parar

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Conhecer o próprio corpo e as próprias emoção não é coisa fácil de se fazer. Várias vezes eu extrapolei meus limites. Muitas vezes não percebi ele chegando. Em alguns momentos parece que eu fico cega para o que está acontecendo e não consigo colocar o limite no momento certo e é claro que a conta vem logo depois. Dura, difícil e invariavelmente dolorosa.

A grande questão é porque?

Porque não parar antes e mais ainda, como perceber o limite? Faz dois anos que parei de tomar anti depressivos. Os medos gradualmente foram diminuído. Isso é bom, mas por outro lado o medo me mantinha atenta. Como fazer isso agora é a minha questão. Porque uma vez que a crise chega é tão mais difícil sair dela. Mas eu estou descobrindo que essa percepção sozinha também é bem complicada. Talvez seja por isso que tenho impressão que o surto acontece do nada. Mas nunca é do nada. E acho que agora não poderia me guiar somente pelo meu corpo. Tenho que colocar minha cabeça para funcionar e racionalmente colocar limites e rotinas. E é tão louco perceber que as coisas que dão prazer são também as que me jogam no fundo do poço. E com uma rapidez espantosa. É bem difícil cultivar a paciência e a observação e agora eu desisti de tentar saber que situação é melhor ou pior. Todas são ruins e boas, difíceis e mais fáceis a sua própria maneira. É extremamente complicado tentar relaxar e observar o pânico enquanto ele acontece, mas também não é fácil praticar quando tudo parece bem e eu tenho a sensação que não preciso tanto, que posso deixar para amanhã.

Passei por um mês extremamente complicado, quase perdi minha mãe. E de tudo o que aconteceu eu percebo que agora a vida precisa de ajustes. E que coisa louca perceber que esses ajustes parecem mais difíceis na calma do que na tempestade. Talvez um seja mais difícil e o outro mais doloroso. Mas também de que tentar colocar etiquetas, nomes nas coisas?

De um jeito ou de outro é só para frente que se anda.

Sentido

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Sentido é o que procuramos a todo momento.

E se nada faz sentido, então tudo o que fazemos tem sentido.

E eu acho que esse é o sentido maior de estar sempre no presente.

Mas existe um obstáculo que se chama ansiedade.

Porque se buscamos por um sentido que não está no momento presente, a possibilidade maior é que ele esteja no futuro. Se tiver ficado no passado então o nome mais indicado é depressão. E que coisa maluca é essa onde o presente parece não ser suficiente, parece não preencher nossa alma. Que coisa verdadeiramente insana querer sempre o que nunca será. Pois uma vez que o pretenso futuro chega, ele se transforma em presente por alguns segundos e imediatamente se torna passado. É um processo que se repete a cada segundo, a cada momento que respiramos, a cada piscada de olho. É como correr incessantemente atrás do rabo. Uma luta inglória e a qual nunca venceremos. E a verdadeira loucura é que não aprendemos. Essa passagem acontece conosco desde o segundo em que nascemos. Convivemos com ela como convivemos conosco mesmo, e ainda sim não aprendemos. Ainda sim passamos pela vida nesta eterna insatisfação de um futuro que nunca chega e de um passado que ilusoriamente achamos mais colorido. E essa aflição não é privilégio dos portadores de transtorno do pânico. Está aí fora, aqui dentro, em todos os lugares. É só olhar, não tem como não perceber.

Tenho pensado muito nisso ultimamente.

Se antes a ansiedade fechava meu estômago, agora me faz comer muito. Se quando estou numa crise muito forte não consigo fumar, agora fumo muito. E sem remédios é a comida e o cigarro que me acalmam. Mas essa calma é tão artificial quanto a que o remédio me proporcionava. Ou seja, o pânico não acabou, ele não foi embora. Ele está sendo gerenciado por substâncias fora de mim. A minha calma continua sendo parcialmente artificial.

Os problemas e as soluções não estão fora.

Não precisamos buscar em outro lugar.

Está tudo aqui.

Precisamos é ter os olhos para ver.

A bexiga e o leite

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Nos últimos dias tenho percebido algumas mudanças no meu comportamento em relação ao pânico.

Antigamente quando estava em uma situação que poderia causar uma crise era como se uma bexiga d’agua se estourasse. Não havia como conter a água de encharcar tudo o que estivesse próximo, uma avalanche, incontrolável. Daí os sentimentos se antecipavam aos acontecimentos. Eu sabia que, uma vez que aquela onda de calor tão conhecida subisse pela minha espinha eu estaria perdida.

Agora as coisas parecem estar diferentes.

Eu ainda sinto a onda de calor. Eu ainda sei quais são as situações com maior probabilidade de me causar uma crise. Mas agora é como se meu corpo e minha mente fossem como o leite que colocamos para ferver no fogão. Se você estiver ao lado, prestando atenção, você percebe quando ele começa a subir e pode baixar o fogo antes dele derramar.

Não é, de fato, imprescindível que o leite derrame nessa situação.

Há a possibilidade de controle.

Hoje eu consigo perceber mais claramente quando o leite está subindo. Mas minha percepção ainda não está tão apurada e eu só consigo ter certeza quando a coisa chega perto do limite. Eu consigo não dar vazão aos pensamentos apocalípticos, eu consigo não deixar o pânico fugir do meu controle. Minha mente me diz coisas que não são reais, ela vê perigos onde não há nada. Minhas sensações me enganam. Isso não quer dizer que a dor não venha.

Ahh, ela está sempre presente…

Hoje a dor aparece, se mostra com veemência, mas a minha mente, que tem o poder de aumentar todas essas sensações, consegue exercer um controle relativo. É engraçado porque ela me engana e ao mesmo tempo me avisa que o engano está acontecendo.

 

 

 

 

 

 

 

A mesma mente que cria as ilusões é a que me lembra que nada daquilo é real.

Como entender essa contradição, como conviver com ela?

Honestamente eu não entendo os mecanismos que fazem a mente se comportar dessa maneira, mas é o que eu vejo, é o que eu sinto e é o que tem acontecido. É como se a mente estivesse dividida em duas, como um hábito cultivado por muitos anos e por isso tão difícil de largar.