A bexiga e o leite

Tags

, , , , , ,

Nos últimos dias tenho percebido algumas mudanças no meu comportamento em relação ao pânico.

Antigamente quando estava em uma situação que poderia causar uma crise era como se uma bexiga d’agua se estourasse. Não havia como conter a água de encharcar tudo o que estivesse próximo, uma avalanche, incontrolável. Daí os sentimentos se antecipavam aos acontecimentos. Eu sabia que, uma vez que aquela onda de calor tão conhecida subisse pela minha espinha eu estaria perdida.

Agora as coisas parecem estar diferentes.

Eu ainda sinto a onda de calor. Eu ainda sei quais são as situações com maior probabilidade de me causar uma crise. Mas agora é como se meu corpo e minha mente fossem como o leite que colocamos para ferver no fogão. Se você estiver ao lado, prestando atenção, você percebe quando ele começa a subir e pode baixar o fogo antes dele derramar.

Não é, de fato, imprescindível que o leite derrame nessa situação.

Há a possibilidade de controle.

Hoje eu consigo perceber mais claramente quando o leite está subindo. Mas minha percepção ainda não está tão apurada e eu só consigo ter certeza quando a coisa chega perto do limite. Eu consigo não dar vazão aos pensamentos apocalípticos, eu consigo não deixar o pânico fugir do meu controle. Minha mente me diz coisas que não são reais, ela vê perigos onde não há nada. Minhas sensações me enganam. Isso não quer dizer que a dor não venha.

Ahh, ela está sempre presente…

Hoje a dor aparece, se mostra com veemência, mas a minha mente, que tem o poder de aumentar todas essas sensações, consegue exercer um controle relativo. É engraçado porque ela me engana e ao mesmo tempo me avisa que o engano está acontecendo.

 

 

 

 

 

 

 

A mesma mente que cria as ilusões é a que me lembra que nada daquilo é real.

Como entender essa contradição, como conviver com ela?

Honestamente eu não entendo os mecanismos que fazem a mente se comportar dessa maneira, mas é o que eu vejo, é o que eu sinto e é o que tem acontecido. É como se a mente estivesse dividida em duas, como um hábito cultivado por muitos anos e por isso tão difícil de largar.

Advertisements

Quanto mais certezas, menos certezas

Quanto menos medo, mais medo…

Quanto mais altos, mais baixos…

Não paro de me espantar com as ironias da vida, especialmente aquelas relacionadas ao pânico.  Ontem de manhã acordei me sentindo muito bem. Subi na balança e vi que tinha ganhado 2kg. Eu já sabia que estava ganhando peso, percebi que estava sentindo cada vez mais fome e estava, claro, me dando os prazeres de fazer tudo o que tinha vontade. Por que eu nunca sei quanto tempo a onda de altos permanecerá. Eu estava no Rio na semana passada e comentei com um amigo querido que estava sentindo muito mais fome e que esse provavelmente era um sinal de uma certa ansiedade. E ele me perguntou: “mas se você está bem e está comendo, vai ficar agora com medo disso também? Assim a vida fica um inferno”.

Às vezes eu sinto que a vida é esse inferno mesmo.

Weeping Nude (1913 - 1914), Edvard Munch (1863 - 1944)

Weeping Nude (1913 – 1914), Edvard Munch (1863 – 1944)

 

Mas o que eu respondi para ele, na verdade foi outra coisa. Percebendo os caminhos tomados pelo meu corpo, de apetite, de humor, de temperatura, talvez eu possa antecipar os altos e baixos e fazer dos baixos não tão baixos e os altos não tão altos. Essa habilidade de prestar atenção aos detalhes, por menores que sejam no dia a dia talvez façam a diferença entre começar bem o dia e terminar me contorcendo de dor na cama a noite, com aqueles pensamentos apocalípticos que conheço mais e melhor do que gostaria.

Ontem a noite eu jantei, estava com a mesma fome das últimas semanas. Fiquei conversando pelo Skype, lendo. Mas em algum lugar o pânico parece que está sempre presente e eu não consigo não frear a pergunta: será? Será que vai acabar bem? Ou será hoje que o inferno me fará aquela visita? E eu já disse isso para amigos e acredito de verdade que isso é um hábito mental, muito mais que algo da qual eu não possa fugir. Não é difícil de entender. Quem tem um hábito ou um vício sabe perfeitamente bem do que eu estou falando. Quem nunca se pegou roendo a unha, mordendo os lábios, cutucando o corpo? Quando vemos, já estamos lá e é tão difícil parar. É incrível como o pensamento vai exatamente para os mesmos lugares.

Estou sozinha. Meus pais estão fora da cidade. E se eu tiver uma crise muito forte? E se eu me descontrolar? E se eu não conseguir não gritar? E os vizinhos? Vão me internar? Eu vou aguentar? Não, eu não vou aguentar tudo isso. Esse mundo é muito duro, é muito difícil. E se eu não tiver ninguém? E se ninguém conseguir me ajudar? E se ninguém quiser me ajudar? Porque essa droga desse mundo parece que está se dissolvendo, que nada é sólido e que tudo está fucking melting around me?? E a dor… a dor no estômago, como se tivesse uma bola gelada e sólida dentro dele. A náusea, o gosto da comida que não desaparece nem escovando os dentes, os arrepios pelo corpo, o intestino que fica solto e revoltado, me leva a contorcer o corpo.

A única coisa que verdadeiramente mudou do ano passado para esse, é que apesar dos pensamentos serem rigorosamente iguais eu não me sinto afogar dentro deles. Eu sinto como se os estivesse assistindo em uma televisão mental e para mim estar nesse lugar é o que me faz conseguir manter o controle.

Não existe fuga para o pânico. A única coisa que existe são as habilidades que desenvolvemos para lidar com ele.

Aniversário

Tags

,

Hoje o Sempre no Presente faz um ano de vida.

Feliz Aniversário

Feliz Aniversário

Antigamente eu gostava de aniversários, depois passei a não gostar tanto assim e hoje lembrar essa data me traz uma certa nostalgia. Pensar em todo o caminho percorrido ao longo desse ano me comove, porque me lembro quando comecei a pensar em escrever sobre as minhas experiências com o pânico e tudo que eu ainda não entendia. Tudo o que eu queria era respirar de novo, era não ir dormir e acordar com os sintomas e até hoje eu não sei direito de onde tirei forças para encarar tanta dor por tanto tempo.

E é tão impressionante que um ano depois minha vida tenha mudado tanto. Quando parei a medicação eu não sabia para onde aquele caminho me levaria, eu não tinha ideia que mais um namoro terminaria, que estaria morando em outra casa e que conheceria tantas pessoas maravilhosas.

Escrever foi e é um refúgio, um desabafo e uma alegria.

É a minha maneira de testemunhar a mim mesma, e no final das contas acho que é para isso que servem os aniversários.

Escolhas

Tags

, , , , ,

Tanta dor nesse mundo, tanto sofrimento, tanta culpa, tantos arrependimentos… e tanta beleza, tanta alegria, tanta satisfação. Cada dia mais eu tenho mais certeza que para cada coisa ruim existem tantas outras maravilhosas.

Eu pensei se o pânico me define, se o abuso me define. E a resposta é sim e não. Sim, eu acredito que o abuso fez parte do desenvolvimento do meu pânico. E provavelmente essas duas coisas explicam a pessoa que eu sou hoje. Eu passei uma parte longa da minha vida tendo raiva, sentindo ódio do mundo, como se ele me devesse alguma coisa. Eu me sentia a vítima dos acontecimentos, mas não como um ser frágil, mas como alguém que buscava retribuição.

Quando decidi parar com os remédios eu aceitei sentir toda a dor do pânico me invadir. Eu decidi aceitar todo o sofrimento. Eu decidi que deixaria o inferno ser minha morada. Eu tinha certeza, no entanto que aquilo acabaria e que a dor de alguma maneira poderia me maltratar, mas ela não me dominaria. Eu tomei uma decisão muito consciente de que o transtorno não seria meu dono mesmo que eu tivesse que leva-lo comigo a todo lugar. Ele não seria senhor de mim.

Mas o alívio começou mesmo quando eu desisti de ser dona dele também. A melhora começou quando eu entendi que não precisava desejar que a dor acabasse. E como foi difícil entender isso. Como alguém pode não desejar ardentemente não sentir dor? –eu pensava.

Mas foi libertador perceber que eu não precisava desejar a saúde, ela naturalmente viria quando meu corpo e a minha mente estivessem prontas. E que a dor não é uma ameaça, é um aviso. Sou eu mesma gritando para mim que agora é hora de parar. E de verdade é só isso. Todos os outros pensamentos apocalípticos é que são a loucura, a doença. E a saúde que eu consegui cultivar não foi a de não sentir ou não querer a dor. Foi a de não fortalecer esse comentário mental que me tira o foco do que realmente precisa de atenção: eu mesma.

E não, nem o pânico e nem o abuso me definem. Quem me define sou eu mesma e as escolhas que eu faço a cada momento. E a minha escolha é ser influenciada pelo que é bom, pelo que tem amor e pelo que genuinamente traz felicidade.

O molho que estragou (?) o jantar

Tags

, , , ,

Mais uma vez saí para jantar essa semana. Tinha decidido dar um tempo nas saídas a noite, mas acabei não resistindo. Fui num bistrô bacaninha na vila Madalena, com todos aqueles pré-requisitos que me acalmam. Lugar não muito cheio e uma varanda. Sentei bem na porta, quase na varanda mesmo. Decidi tomar um pouco de vinho e pedir uma salada. É claro que todos temos nossas estratégias, mas acho que não é boa ideia dar ênfase nessas coisas, porque com o tempo acredito mesmo que isso passe. Pedimos uma entrada, uma torradinha com queijo e tudo ia bem.

Até eu ter a brilhante ideia de colocar o molho em cima. Estava morrendo de vontade e ignorei a luz amarela que ascendeu na minha cabeça. Eu pensei: ahh, que paranoia, o que é que tem? E agora escrevendo isso eu sei exatamente o que é que tinha. Não era o molho, não era o fato de ser doce. Fui eu sozinha quem deu importância e solidez para o coitado do molho. Eu coloquei o dedo em alguma coisa e deixei que ela me perturbasse, se tornasse grande e me atrapalhasse. As loucuras e os obstáculos não estão fora, estão dentro. Sou eu quem cria essas fantasias, sou eu quem transforma um molho perfeitamente bom em algo assustador. Sou eu a responsável por embrulhar meu próprio estômago.

Dessa vez consegui pelo menos terminar de mastigar e engolir. Dessa vez, consegui pelo menos aproveitar a companhia, mesmo não tendo colocado mais nada na boca até o final do jantar. Dessa vez, consegui não apressar minha companhia para ir embora.

Então no meio de toda essa loucura, de alguma maneira eu sinto que a cada dia dou alguns micro passos para frente.

Crises iguais, reações diferentes

Não tinha uma sequência de crises de pânico há alguns meses.

Minha vida mudou bastante desde o começo desse ano e com novas atividades aparecem as perturbações penduradas. Mudança de casa, mais atividades de trabalho, mais atividades no dia a dia. Fica cada vez mais difícil encontrar tempo livre e tudo isso faz parte, o que eu preciso fazer é acomodar, harmonizar, reequilibrar.

Mas o interessante de tudo isso é o que eu tenho percebido em relação as crises. Elas continuam exatamente iguais. Vem o calor, o formigamento, o enjoo, a dor de estômago, ou seja, todas as dores estão lá, intocadas, aparentemente imutáveis. A diferença é que o terror não está mais vindo, o susto não está mais aparecendo e o desespero não está tomando conta. Eu sinto todas as dores, olho para o mundo e não sinto mais que ele está se fechando sobre mim, não sinto que vai me esmagar. Eu olho para as pessoas e não me sinto ameaçada por elas. É muito incômodo ainda, mas tudo isso está fora de mim. Eu sinto que não estou mais dentro do terror. É como se a minha mente tivesse entendido algo que meu corpo ainda não conseguiu acompanhar.

Meus pecados

Tags

, , , , ,

A vida é uma coisa muito louca. As relações são algo louco também.

Meu casamento acabou durante uma recuperação e meu namoro mais longo também. E na minha cabeça seria muito difícil me relacionar com alguém tendo pânico. Não que as pessoas sejam ruins. As pessoas querem ser felizes e o pânico é uma coisa renitente, que te acompanha o tempo todo, mesmo quando está quietinho. E ele afeta até quando parece ser imperceptível. E eu notei uma coisa, não é o pânico necessariamente que afasta as pessoas. Não é a crise em si. É o que ela carrega. Ou talvez o que eu carregue. Antigamente eu encarava como uma coisa super pesada, como uma cruz nos ombros. Tudo era difícil e sombrio. Depois que parei os remédios e comecei a meditar, me tratar de forma alternativa, e principalmente quando consegui parar de ter ódio do meu tio e do mundo foi como se o peso me deixasse, como se a sombra se dissipasse. Mas quando a gente acha que tem certeza, que descobriu, que entendeu, a vida vem de novo e te prega uma peça.

Hoje eu tenho muito menos crises, na verdade quase nenhuma, mas eu estou o tempo todo tentando estar tão consciente do mundo a minha volta, do meu corpo, das minhas reações e sensações que acho que deixei de notar quem estava na minha frente.

Refletindo agora fora das situações, tento perceber onde e como as coisas saem do caminho. E pensando agora, neste exato momento, a verdade eu tenho prestado atenção demais em mim mesma. E honestamente não sei como fechar essa equação, porque sinto que não posso me descuidar, mas ao mesmo tempo estar tão absorvida em mim mesma afasta, não aproxima.

Não sei se meus pecados são maiores ou menores. Mas acho que tenho sido um tanto egoísta. Eu fico pensando em qual será a próxima fase e talvez seja o momento de parar de olhar para o meu umbigo, levantar os olhos e ver o que está bem na frente do meu nariz.

Não sei se meus “pecados” são maiores ou menores, na verdade acho que isso é irrelevante, já que eu nem percebo a vida nesses termos. Também não sinto culpa, acho esse conceito um atraso em muitos níveis. Por outro lado talvez tudo isso sejam tropeços necessários. Talvez sejam essas as pedras que fazem o caminho.

A crise de pânico mais bonita da minha vida…

Tags

, ,

Ontem tive uma crise de pânico depois de meses sem um episódio.

Ela veio no contexto clássico. A noite, em um restaurante cheio, barulhento e quente. O garçom trouxe meu prato. Uma coisa linda, risoto de cogumelos com queijo de cabra. Peguei o garfo e levei a boca.

Foi então que… calor, muito calor, da base da minha coluna para cima, até as orelhas. Senti em cada pedaço do meu corpo aquele calor tão familiar, que parecia irradiar de dentro de mim. Parecia tão impossível que não queimasse as pessoas a minha volta. Fiquei parada por dois segundos, sentindo cada uma daquelas sensações me invadir. Não podia mastigar. Como se soubesse que cada sabor daquela garfada me levaria a um círculo diferente do inferno.

Tanta coisa, tão pouco tempo. Peguei o guardanapo e devolvi a comida. Olhei para meu amigo querido sentado a minha frente.

Eu via, mas não enxergava, eu ouvia, mas não escutava.

Fechei os olhos e me concentrei em sentir meu corpo todo.

Respirei fundo.

Uma vez, duas vezes, três vezes.

Pela primeira vez eu senti que saí de dentro do pânico e o olhei de frente.

Tudo tão perto…

Mas eu consegui raciocinar.

Os pensamentos que antes me invadiam sem pedir licença foram mais s

uaves.

Eu pensei em pegar minha bolsa e run for dear life…

Mas eu queria estar ali. Eu queria aquele momento, eu queria aquela companhia. Eu queria escutar e eu queria falar e eu queria me divertir.

Eu queria ser a garota suficientemente normal.

 

Mas a verdade é que eu não sou, nem nunca fui. E talvez por ter entendido isso não odiei o pânico, não desejei que ele desaparecesse, não desejei que ele  me deixasse em paz.

Meu único desejo foi olhar o pânico nos olhos.

E talvez a verdade seja que uma coisa tão poderosa assim não seja totalmente ruim.

Talvez o medo continue real enquanto eu acreditar que ele é tão maior que eu mesma.

E se esse dragão do medo é criação minha então ele pode ser muito mais uma força que uma fraqueza.

Talvez ele não tenha que ser dominado ou subjugado.

Talvez ele deva ser conduzido.

Talvez eu deva dançar com meu dragão do medo.

Talvez ele seja meu aliado e minha força.

 

Mudança!

Tags

, , , , ,

Esse ano resolvi me mudar.

Na verdade a mudança começou quando decidi parar de tomar remédios. Essa decisão foi uma mudança de paradigma, de perspectiva em relação a maneira pela qual eu enxergava o pânico na minha vida e como eu queria encará-lo a partir daquele momento. E eu percebo que tudo isso é uma jornada e eu tento me lembrar todos os dias que o importante é o caminho, e, porque sempre que me concentrei num fim senti um vazio tão grande, um desespero de pensar: mas é só isso então? E apesar de não suportar agitação demais também não gosto de não ter movimento na minha vida e é daí que vem mudanças constantes. E não é para chegar realmente em algum lugar específico, mas manter as flutuações, o movimento.

Meu piso como a minha vida. Com algumas rachaduras e infiltrações, mas doido para ser "salvo"

Meu piso como a minha vida. Com algumas rachaduras e infiltrações, mas doido para ser “salvo”

Penso que comecei a transformação da minha perspectiva e imagino que esteja funcionando, porque não tive outra crise de pânico em meses. E é muito louco me ver nas situações que as causariam, enxergar os pensamentos de medo se formando, e as sensações querendo emergir e me jogar naquela realidade criada pelas mãos do meu próprio terror. E essa sequencia de acontecimentos é tão palpável que parece que se eu estender a mão posso tocá-la. Eu sei que a minha reação natural seria correr, fugir daquele lugar, do barulho, dos cheiros, do calor, enfim do caos. Hoje, por alguma razão que eu ainda não consigo colocar o dedo, eu paro o que estou fazendo e puxo lentamente o ar. Sinto encher meus pulmões, sinto no meu nariz, fecho os olhos e prendo a respiração por alguns segundos… eu abro os olhos e solto esse ar todo, devagar… Olho para fora e onde antes eu enxergava terror eu tento perceber que as coisas estão ali e ao mesmo tempo não estão, que o terror é construído por mim e então a ameaça de verdade não existe. E se eu posso criar eu posso dissolver também.

E essa mudança de casa está deixando todo esse processo cada vez mais claro. O apartamento precisa de reforma e eu queria mudar no final desse mês. Não será possível, algo a ver com chuva e infiltrações. Eu tenho tentado não deixar essas coisas me irritarem, porque aparentemente reformas são imprevisíveis, como a vida e meu pânico são imprevisíveis também. E daí vem aquela história de estar nesse momento porque ele é o único que existe. A minha missão agora é aproveitar ao máximo a proximidade com meus pais, minha casa dentro da casa, o silêncio e até as escadas intermináveis. E olhar para o futuro próximo sem tanta ansiedade, para quando eu me mudar para aquele espaço que pela primeira vez será só meu.

Quando o inferno faz uma visita surpresa…

Tags

, , , , , ,

É muito louco quando olhamos para trás depois de uma crise violenta. Antes dela chegar você não percebe. Não realmente. Você até sabe que está estressada, que aquele não é exatamente o lugar que queria estar, que as coisas te incomodam um pouco mais do que deveriam. Mas eu achava que era normal, e que era assim com todo mundo. E é aí que está o perigo. Porque realmente acho que isso acontece com todo mundo, mas nós não sabemos quem vai suportar o estresse e quem cairá de joelhos diante dele. Eu caí de joelhos diante da crise e fui arrastada para o inferno. E nesse momento não é mais tristeza, não é mais ansiedade, ou medo ou estresse, é doença. Porque você não consegue se livrar daquela sensação inexplicável. É a dor, uma dor profunda e que parece cortar as entranhas. Não tem explicação, a lógica simplesmente não existe. E o problema não é a tristeza em si ou o estresse, todos experimentamos essas sensações. A doença acontece quando essas sensações são multiplicadas a raiz do que parece ser o infinito. E é tão difícil, explicar, é tão difícil compartilhar com nossos amados e nossos amores. Você vê a tristeza deles, você vê a dor que eles sentem vendo a sua dor. E você vê o esforço para entender, a vontade desesperada de ajudar, se eles pudessem te arrancariam daquele lugar que não entendem. E muitas vezes essa é o coração do problema: eles não entendem e você não consegue explicar, porque é impossível explicar a dor de um braço quebrado para quem nunca quebrou uma unha. Explicar como a sua alma está dilacerada? Não saberia como explicar como não saberia descrever a cor azul para quem nasceu cego. Ser bem casado, ter dinheiro, filhos ou pais maravilhosos não tem nada a ver com isso. Infelizmente o amor não tem nada a ver com isso. Quando a doença mental se abate sobre nós não há contexto externo que possa ajudar. Ter comida ou casa não fazem diferença, sofrer na rua ou no castelo é exatamente a mesma coisa, porque no inferno não há beleza, não há riqueza e não há conforto. Eu queria ter dito para meu ex-marido que o problema não era com ele, nem com o nosso casamento, nem com nada que estava fora. Eu queria ter podido me afastar para me recuperar. Talvez isso tivesse feito diferença, talvez meu casamento tivesse sobrevivido se ele não precisasse ter convivido com essa coisa enigmática que é o transtorno mental. Porque nós viramos uma sombra de quem éramos e não queremos falar, não queremos explicar e não queremos ninguém perguntando como foi nosso dia.

“Será que ele não vê que o inferno está queimando dentro de mim? Que eu estou queimando? Porque diabos ele me faz essa maldita pergunta todos os dias? Será que ele não entende?”

Não, ele não entende e não vai entender nunca.

O inferno está dentro e é por isso que nada parece bom e nada alivia. Porque estamos olhando com os olhos do inferno, com os olhos da dor. Esse véu de horror sobre nossos olhos não nos deixa ver nada de belo, nada de afetuoso. E como explicar? Não há explicação. Eu escuto muitas falas sobre esse mundo interno e sobre como tudo isso é criação da nossa própria mente. Eu entendo e faz sentido para mim, mas eu sempre preciso adaptar esse discurso porque sei que o foco são as pessoas “normais”. Não, são pessoas normais assim mesmo sem aspas, porque é infinitamente mais fácil lidar com as neuroses do que com o transtorno mental. E eu posso falar isso porque lido com ambos. Essa história de que é tudo a mesma coisa, só muda a intensidade é verdade até a página dois. A neurose comum não te debilita, a neurose comum não te faz considerar a morte como alternativa real e a neurose comum não te arrasta pelos cabelos, não te obriga a olhar debaixo de porrada e não te coloca de joelhos.

As Faces de Helen, filme de Sandra Nettelbeck sobre uma mulher com trastorno mental.

As Faces de Helen, filme de Sandra Nettelbeck sobre uma mulher com trastorno mental.

Eu vi um vídeo sobre sobre sair do mundo para meditar e conseguir olhar as neuroses porque no dia a dia normal do mundo é muito difícil. Mas o transtorno mental faz isso por você, é ele quem te retira do mundo e não quer saber sua opinião, não é uma escolha. E eu sinto muita falta de ouvir de pessoas com essa doença sobre um caminho, qualquer caminho. Eu não quero voltar a tomar remédios, mas eu sei que é uma possibilidade. Eu sei que agora está sendo possível viver sem a medicação, mas eu sei que o pânico está quieto, observando. As vezes eu penso nele como o bedel da escola, ele fica te observando e se você sair da linha ele vai te arrastar de volta. Pelos cabelos de preferência. Antigamente eu tinha um pouco de raiva dessa conversa toda, das pessoas normais com seus conselhos e sabedoria. Eu achava que eles me olhavam com uma certa pena… como se eu não tivesse encontrado a resposta, como se esse inferno todo fosse criação minha, ou meu karma. Mas no final das contas eles tem razão, mas provavelmente não tem ideia do quanto e nem da magnitude da coisa. Decidir não brigar com o cara que te fechou no transito é fácil, perdoar e liberar quem te abusou sexualmente aos seis anos é uma história bem diferente. A intensidade da coisa conta muito e não dá para ignorar nem fazer de conta que entende.

Mas eles não estão errados… eles só não sabem…